Num mundo onde o uso de ferramentas de tecnologia intermediam as relações diretas, às vezes protegendo os atores numa “nuvem” atrás das telas, a comunicação tem se mostrado bastante não-assertiva. Em nome de opiniões cristalizadas, nem sempre fundamentadas, às vezes reproduzidas e compartilhadas sem o devido crivo da crítica – ou do bom senso – temos visto crescer comunicações carregadas de ódio, violência e preconceitos.

Neste texto de Mário Sérgio Cortela ele nos provoca a refletir sobre nossa capacidade de “corrigir sem ofender, orientar sem humilhar”, principalmente em contextos de educação de filhos, orientação de alunos… Mas dá para fazer paralelos com as conversas de adultos, no intercâmbio de suas opiniões sobre a vida, as coisas, o outro, o mundo… Bastante útil.

 

“O que é uma pessoa honrada? Aquela que, entre outras coisas, tem a percepção da piedade, aquilo que precisa ser resguardado na convivência. Uma pessoa autêntica tem a autenticidade grudada à piedade. Eu não posso, em nome da minha autenticidade, dizer tudo o que penso. Eu não posso, em nome da minha autenticidade, desqualificar apenas porque quero ser transparente. Ser autêntico não significa ser transparente de maneira contínua.

Ser transparente para si mesmo? Sem dúvida, mas dizer tudo o que pensa numa convivência é ofensivo. O exemplo do menino de 5,6 anos de idade que traz o presente clássico do Dia dos Pais feito pelas próprias mãos.

Chega da escola com aquelas coisas horrorosas feitas com casca de ovo, palito de sorvete, que chegam a cheirar mal. “Pai, tá bonito?” É obvio que o pai dirá que está maravilhoso naquela circunstância. A ideia do elogio ou do não elogio tem de ser circunstancializada.

Uma pessoa autêntica não é aquela que é o tempo todo transparente. Se ela não tiver percepção de circunstância, ela se torna inconveniente. “Mas é assim que eu penso”. O fato de pensar assim não exime a pessoa de ser moderada. Isso não a leva a perder a autenticidade, apenas a resguardar a expressão de modo como é. Porque, como eu sou com os outros, tenho de ser de fato o que sou, mas não posso desconsiderar que outros existem. É preciso cautela, em nome da autenticidade, para não ser ofensivo. Nem descambar para o terreno da crueldade. Por exemplo, a criança chega com o presente e o pai diz: “Não está não. Você devia ter feito uma coisa bonita”. Ora, na condição daquela criança, ela fez algo belí­ssimo. E é belo porque ela fez no melhor da sua condição.

Não é a mesma circunstância de um pai ou de uma mãe que percebem que a criança fez algo com desleixo. Nesse caso, não deve elogiar por elogiar, porque isso deseduca. Se um filho ou uma filha traz um desenho que pode ser precário, mas que, naquela circunstância, naquela idade, naquele modo, é o melhor que a criança poderia fazer, é preciso elogiar em alto estilo. É sinal de afeto imenso. Mas, se o desenho apresentado é resultado de um desleixo, não se deve elogiar. Eu posso dizer a clássica fase de quem educa: “Você é capaz de fazer melhor do que isso que está me mostrando”. Isso é educação. O que é crueldade? Dizer: “Isso é péssimo”. Quem educa precisa corrigir sem ofender, orientar sem humilhar. Precisa conviver com essa virtude, que é a piedade.”

 

Trecho do Livro: Educação, Convivência e Ética:  Audácia e Esperança – De Mário Sérgio Cortella. Páginas 67/69. Cortez Editora, São Paulo- SP.

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