Em um mundo que cada vez mais parece condicionar o nosso olhar, limpar as “lentes”, aprimorar o “olhar” sobre as coisas, reaprendermos a ver as coisas em sua realidade não misturada, pode fazer toda a diferença em nossa vida. Neste texto de Gustavo Gitti, ele nos provoca a tentar limpar a “alma” e buscar viver cada coisa como se fosse única, nesse momento presente. Resgatar o olhar da criança ou do aprendiz que enxerga magia e mistério nas coisas, tal como se as estivéssemos vendo pela primeira vez. Quem sabe assim não nos maravilharíamos mais; quem sabe não resolveríamos melhor as dificuldades. Quem sabe não misturaríamos tanto as coisas! Quem sabe não seriamos mais felizes!

Limpe os olhos

Boa parte do sofrimento nas relações surge porque somos incapazes de soltar o momento anterior.

Gustavo Gitti

O casal foi dormir brigado. No dia seguinte, os olhos se abrem, mas não muito: eles levam a briga para o trabalho, imaginando que o outro faz o mesmo. Mais tarde, paira a necessidade de retomar o foco da noite passada. É como se houvesse uma névoa impedindo o acesso ao frescor do novo momento: “ele ainda é aquele que me disse tal absurdo.” Na outra cena que abre essa coluna, uma pessoa passa por diferentes mundos em poucas horas, como nunca foi possível na história da humanidade: do pilates para os incontáveis e-mails, do almoço com a mãe ao Skype com a namorada, tudo sem deixar de acompanhar grupos bem diferentes em conversas no Whatsapp.

Ao fim do dia, chega em casa exausta, como se os olhos estivessem poluídos, como se boa parte do que passou por eles tivesse grudado. Em vez de parar, o que ela faz? Reconta e comenta seu dia, internamente ou para quem estiver perto. Levamos as perturbações de um mundo para dentro do outro, de uma relação para a outra, costurando uma coerência que não existe, conectando eventos independentes e tomando decisões a partir daí: “Vou terminar esse namoro! Há três meses tenho sentido isso, ele se tornou tal pessoa, tem também a crise hídrica, enfim, acho que é o momento.”

Nosso corpo se entorta em algum lugar e então vamos tortos para todos os lugares. Às vezes juntamos várias pequenas oscilações de energia em uma bola de neve e decretamos: “Eu sou uma pessoa horrível, minha vida inteira não tem saída, estou em depressão!”. As sensações de correria, pendência, desânimo, acúmulo, certeza, seriedade – de fracasso e até mesmo de sucesso – só surgem porque somos incapazes de soltar. Soltar o quê? Histórias, tensões no corpo, visões empedradas sobre nós mesmos e sobre os outros, falatório interno, lembranças compulsivas, fabricações mentais tomadas como realidade, antecipações, expressões faciais, fixações de todo tipo. “Não importa qual aparência surja, limpe os olhos, de novo e de novo.” Foi algo assim que ouvi da tutora que me apoiou em um retiro fechado de silêncio.

Imagine uma tela de cinema na qual todos os filmes se sobrepõem, ou um espelho que guarda tudo o que reflete: depois de pouco tempo não dá para ver mais nada. Nossos olhos são assim. Convido você para um experimento: nos próximos dias, entre dois momentos, pare por alguns segundos e solte o que acabou de acontecer. Deixe que aquilo se vá, não costure com outra coisa. Ao fazer isso, você verá que a energia surge, assim como podemos estar quase dormindo em uma palestra chata, mas logo acordamos dispostos ao ver que chegou o slide final.

É sempre possível inaugurar a vida. Não precisamos esperar por uma crise para começar do zero (melhor que recomeçar). Teste agora mesmo, ao acabar a leitura: deixe cair os ombros, desobstrua a respiração, relaxe a mandíbula, a língua, a garganta. Solte o texto junto com a exalação, sem pressa de encontrar o momento seguinte com os olhos claros, vazios de conteúdo. Ah…

 

GUSTAVO GITTI é professor de TaKeTiNa (florescimento humano pelo ritmo). Seu site é gustavogitti.com

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